
Roman Vernidub, CEO e fundador da Koru Pharma
A Koru Pharma é uma startup biofarmacêutica global, especializada em produtos de medicina estética, antienvelhecimento e rejuvenescimento cutâneo. Em 2019, Roman Vernidub foi o único europeu incluído na lista Forbes 30 Under 30 Asia.
Muitas pessoas acreditam que é preciso morar na Califórnia para construir um negócio bilionário, mas já deveria estar claro que isso não é verdade.
Sempre acreditei que a Ásia oferece uma oportunidade única para aspirantes a empreendedores desde que me mudei para a Coreia do Sul, em 2010. No entanto, uma coisa é inegável: fazer negócios na Ásia é diferente de atuar em outras partes do mundo. Mas, se você souber como abordar o mercado, crescerá rapidamente.
Aqui estão as cinco principais descobertas que me ajudaram a me adaptar ao ambiente de negócios no Leste Asiático, e espero que elas ajudem você a acelerar sua ideia.
Startups em todos os mercados de tecnologia da Ásia trabalham para gerar receita com seus produtos e serviços desde as etapas iniciais. Isso é viabilizado principalmente pela transformação tecnológica na região e pelos consumidores digitais altamente adaptáveis da Ásia, que demonstram grande entusiasmo por essas tecnologias.
Em geral, é possível encontrar milhares de fabricantes em qualquer setor por aqui, e todos competem pelas melhores condições. Esse ecossistema se retroalimenta, formando milhões de profissionais com experiência relevante que você pode contratar.
A Ásia também conta com uma infraestrutura moderna e bem conservada, o que facilita a logística, e a Coreia do Sul tem algumas das velocidades de internet mais altas do mundo. Esses dois fatores tornam a comunicação e o transporte de mercadorias processos relativamente tranquilos.
O que isso significa na prática? Que marcas asiáticas conseguem lançar produtos inéditos em um prazo muito menor do que seus concorrentes europeus e americanos.
No meu setor, isso pode levar apenas seis meses, enquanto para grandes marcas europeias e americanas o prazo seria de quase um ano ou mais — o que as deixa mais distantes dos clientes. Isso se intensifica porque as empresas monitoram rapidamente o mercado: se você tiver uma boa ideia de negócio e ela fizer sucesso, deve esperar o surgimento acelerado de imitadores.
A Ásia também tem uma participação acima da média em patentes em várias áreas de tecnologia, como cleantech, robótica e drones, bem-estar e beleza, tecnologia agrícola, tecnologia espacial, gestão digital de recursos humanos, realidade aumentada e virtual, tecnologia industrial em nuvem e nanotecnologia. A maioria dessas áreas está relacionada à manufatura e reforça, ainda mais, a crescente capacidade de inovação da Ásia nos setores produtivos.
O cenário empresarial coreano, em particular, pode ser desafiador. A maioria das indústrias locais é controlada pelos chaebols — conglomerados poderosos que fabricam de tudo, de pasta de dente a carros, e são responsáveis por 67% do PIB. Mas isso também cria um ecossistema robusto de fábricas, fornecedores e profissionais que você pode contratar.
Se você quer atuar com sucesso na Ásia, precisa entender a cultura local. Na minha experiência, a sociedade coreana, em particular, é construída principalmente sobre o confucionismo e a hierarquia militar. Os homens precisam cumprir o serviço militar obrigatório, o que faz com que disciplina e ordem também permeiem o ambiente corporativo.
Uma das primeiras coisas que você vai notar ao trabalhar na Coreia do Sul são as diferenças marcantes na cultura de trabalho. Por exemplo, na Coreia, seus colegas de trabalho são considerados sua segunda família.
Você não apenas passa o dia de trabalho com eles, mas também participa de passeios regulares nos fins de semana, como trilhas, e, em geral, de um jantar mensal. Sei que colegas na Europa ou nos EUA também podem se reunir, mas isso raramente acontece com tanta frequência ou de forma tão formal.
As pessoas também são desestimuladas a encerrar o trabalho no horário previsto, especialmente se seus gestores continuarem trabalhando — em vez disso, permanecem até mais tarde para demonstrar comprometimento, mesmo que gastem tempo extra desnecessário em tarefas que já foram concluídas (ou seja, presenteísmo). É preciso entender como suas solicitações e seu comportamento podem afetar as pessoas com quem você trabalha.
Outro fator importante, válido tanto para o trabalho quanto para a vida pessoal na Coreia, é o coletivismo. Questionar uma ideia geral apresentada por superiores ou uma instrução é malvisto e pode gerar conflito. Isso pode afetar negativamente o processo criativo, embora uma atmosfera menos confrontacional possa favorecer o tempo de produção.
Acho também importante notar que a criatividade vem sendo mais aceita em empresas jovens, especialmente porque muitas pessoas com menos de 40 anos foram educadas na Europa e nos EUA.
Quando cheguei aqui, percebia com frequência que diretores e gestores de potenciais parceiros e fornecedores não me aceitavam. Eu não era apenas um estrangeiro; parecia jovem demais para ser o CEO de uma empresa com a qual eles trabalhariam. Com o tempo, aprendi mais sobre essa cultura e encontrei um parceiro local que ajudou a estabelecer uma relação de confiança com novos contatos.
Combinar duas culturas profundamente diferentes se tornou a nossa norma. Investimos fortemente na produção local conduzida por profissionais coreanos e em sua execução pontual.
Já nosso marketing e nossas vendas são gerenciados exclusivamente por expatriados que viveram e trabalharam nos EUA e na Europa, trazendo uma cultura mais aberta e proativa. Eu recomendaria a qualquer empresa que esteja entrando nesse mercado que avalie os prós e contras e encontre o equilíbrio mais adequado para si.
Basta olhar para Samsung e Apple — duas gigantes da eletrônica de consumo com alcance global e bases de clientes fiéis.
O modelo de negócios da Samsung é focado na integração vertical das cadeias de suprimentos e no aumento do volume de produção. Já a Apple se concentrou em design e experiência do usuário, terceirizando atividades não essenciais, como a fabricação, o que a torna uma empresa muito mais focada.
Essas diferenças ficam evidentes no fracasso de grandes marcas que não se sustentaram no mercado coreano, como Walmart, Carrefour e Yahoo.
Países como China e Coreia do Sul têm apenas algumas gerações de pessoas ricas. Com o crescimento de suas economias, só recentemente passaram a ter acesso a marcas de luxo e viagens internacionais, e têm aproveitado ativamente essa oportunidade.
A opinião pública influencia fortemente as escolhas de consumo, já que os pares esperam que você exiba sua riqueza e compre produtos adequados — uma diferença marcante em relação à cultura majoritariamente igualitária dos Estados Unidos.
Os clientes e consumidores para os quais você venderá também são diferentes e têm padrões de consumo próprios. Por exemplo, podem buscar mantimentos online pelo menor preço possível e, depois, enfrentar filas em uma loja de luxo como a Chanel para a coleção mais recente, onde não é incomum esperar de duas a três horas.
O comportamento dos consumidores sul-coreanos tem se aproximado cada vez mais dos padrões de consumo das economias desenvolvidas. O consumidor na Coreia tende a se preocupar com os nomes das marcas e com os atributos de saúde de um produto, mas também quer um serviço de vendas mais próximo e personalizado.
Mais notavelmente, os consumidores estão cada vez menos preocupados em comprar produtos fabricados na Coreia do Sul e cada vez mais inclinados a adquirir produtos estrangeiros.
Os consumidores sul-coreanos são materialistas e aspiram a estilos de vida retratados pela mídia. Cada vez mais, o dinheiro é visto como representação e sinal de sucesso, além de haver ênfase em itens publicamente visíveis por seus significados e valores simbólicos associados.
Minha equipe e eu vendemos nossos produtos em todo o mundo e vivenciamos pessoalmente as diferenças nos processos de vendas e marketing. Na Europa, normalmente obtemos os melhores resultados trabalhando com distribuidores locais que usam canais tradicionais de marketing.
Pode ser desafiador para o profissional de marketing não asiático adaptar-se à forma de pensar do consumidor asiático, já que ela muitas vezes parece destoar da “norma ocidental”. O que constatei é que a embalagem é fundamental.
Os consumidores querem designs divertidos, vibrantes, elegantes e minimalistas, além de nomes marcantes. Em algumas categorias, a embalagem é o produto e o principal fator de decisão na compra. Às vezes, parece até que o consumidor se importa menos com a qualidade do produto do que com a experiência de compra como um todo.
O papel das redes sociais na Ásia é amplificado de forma significativa. Embora influenciadores sejam muito comuns na Europa e nos EUA, na Ásia eles funcionam de um jeito um pouco diferente.
Os influenciadores promovem ativamente os produtos de seus clientes; fazem transmissões ao vivo falando sobre eles e ajudam a moldar a opinião pública. Se você tem um produto promissor, não terá dificuldade em encontrar uma grande variedade de influenciadores e celebridades dispostos a compartilhá-lo com seu público.
Os governos dos chamados Quatro Tigres Asiáticos incentivam ativamente os negócios e os investimentos estrangeiros. Por exemplo, a Coreia do Sul oferece um programa especial de visto para investidores que exige um aporte relativamente modesto, de cerca de US$ 90 mil, que você pode usar quase imediatamente para financiar suas operações.
Alguns programas podem oferecer espaço de escritório acessível, assessoria jurídica e serviços de agente registrado. Mais importante ainda, os reguladores preferem concentrar-se nas grandes empresas, permitindo que pequenas e médias empresas cresçam e se expandam com certo grau de liberdade, desde que cumpram os requisitos básicos de conformidade.
Elas só passam por auditoria depois de ultrapassar cerca de US$ 10 milhões em receita. Portanto, aproveite ao máximo o apoio disponível se você lançar uma startup na Ásia — isso pode fazer uma grande diferença.


